
O avanço da inteligência artificial está mudando uma das atividades mais associadas ao trabalho dos desenvolvedores: escrever código. Mas, para Gustavo Guanabara, isso não significa que esses profissionais estejam perdendo espaço. O que muda é o papel de quem trabalha com programação e as habilidades exigidas diante de ferramentas capazes de gerar códigos e aplicações.
“Hoje criar software está fácil. Criar software bom continua difícil como sempre”, resume Guanabara.
Criador do Curso em Vídeo e uma das principais referências brasileiras no ensino de programação, Guanabara esteve em Natal como um dos convidados do GO!RN + DevFest Natal 2026. Ele encerrou a maratona de palestras com “O ontem, o hoje e o amanhã do mercado de desenvolvimento”, tema voltado às transformações vividas pelo setor e aos próximos caminhos da profissão.
Para Guanabara, uma das principais mudanças desse cenário está no avanço da inteligência artificial. Ferramentas capazes de gerar códigos e aplicações ampliaram as possibilidades de criação, inclusive para quem não é desenvolvedor, mas também trouxeram novas exigências para os profissionais da área.
Ele lembra que mudanças na forma de programar acompanham a própria história da computação. Das primeiras máquinas, operadas por conexões físicas, vieram comandos, linguagens e frameworks que simplificaram tarefas antes mais complexas. A inteligência artificial representa, na avaliação dele, mais uma etapa desse processo.
“Agora também surgiu mais um nível de abstração. Só que isso cada vez mais vai popularizando, vai permitindo novas pessoas entrarem”, explica.
Essa facilidade já permite, por exemplo, que um empreendedor utilize a IA para transformar uma necessidade do próprio negócio em uma primeira aplicação. Guanabara considera essa possibilidade especialmente útil para criar uma prova de conceito e verificar se determinada ideia pode solucionar um problema.
A situação muda quando o software deixa de ser um teste e passa a operar no mercado. Guanabara chama atenção para a necessidade de considerar segurança, proteção de dados, possíveis vulnerabilidades e a capacidade de atender um número maior de usuários. Uma aplicação pode funcionar para uma necessidade pontual sem necessariamente estar preparada para armazenar dados de clientes ou operar comercialmente.
“Quando você coloca em produção, abre as portas para quem está querendo consumir e também para quem está querendo fazer coisa errada”, alerta.
Nesse cenário, Guanabara avalia que a inteligência artificial não elimina o desenvolvedor, mas modifica as competências exigidas desse profissional. Com ferramentas capazes de escrever parte do código, compreender o problema e saber especificar uma solução ganham ainda mais importância.
“O programador não é um escrevedor de código. Escrever código é uma das consequências. O programador é um resolvedor de problemas”, afirma.
Saber explicar aquilo que precisa ser desenvolvido é uma dessas habilidades. Para Guanabara, o profissional precisa ser capaz de compreender uma necessidade, dividi-la em problemas menores e orientar a ferramenta com precisão. O conhecimento técnico também permite avaliar o resultado produzido pela IA, testar o sistema e identificar possíveis falhas.
“Você tem que ter o conhecimento técnico para olhar o código que a IA gerou e falar: ‘Tem uma possibilidade de brecha aqui, existe um risco aqui’”, exemplifica.
Para quem está começando na área, ele defende que a inteligência artificial já faz parte do aprendizado, mas como uma ferramenta auxiliar. Já os profissionais mais experientes podem aproveitar o repertório acumulado para fazer melhores especificações e incorporar a tecnologia ao cotidiano de trabalho.
O preparo para esse novo cenário, na avaliação de Guanabara, também passa pela formação. Ele considera importante combinar os fundamentos aprendidos na academia com a experiência adquirida no mercado. A universidade, segundo ele, amplia o repertório ao colocar o estudante em contato com conhecimentos que talvez não buscasse sozinho, enquanto a prática apresenta problemas e necessidades concretas.

A esse aprendizado, Guanabara acrescenta a troca com outros profissionais e com o próprio ecossistema de tecnologia. É nesse ponto que ele destaca a contribuição de eventos como o GO!RN e o DevFest Natal. Em 2026, o encontro da comunidade de desenvolvedores passou a integrar a programação do GO!RN, ampliando o contato entre profissionais de tecnologia, estudantes e empreendedores.
Para Guanabara, essa aproximação cria oportunidades para conectar desafios encontrados nos negócios ao conhecimento de quem desenvolve soluções tecnológicas.
“O que é importante num GO!RN, num DevFest, é isso: juntar as comunidades”, destaca.
Essa troca faz parte do que ele considera uma formação mais completa. “Eu acho que o profissional completo é um misto de um pouco de academia, um pouco de mercado e um pouco de comunidade.”
Da ideia ao mercado
Para os empreendedores, Guanabara vê na inteligência artificial uma oportunidade de testar ideias antes de investir no desenvolvimento de uma solução mais estruturada. As ferramentas permitem criar uma primeira versão a partir de problemas identificados no próprio negócio e avaliar, na prática, se aquela proposta faz sentido.
“Cria o seu software, cria sua prova de conceito, tenta criar porque ninguém sabe explicar melhor o seu problema do que a própria pessoa que está passando pelo problema”, orienta.
A prova de conceito, entretanto, não deve ser confundida com um produto pronto para o mercado. Se a ideia avançar e passar a atender clientes, lidar com dados e ganhar escala, a orientação é buscar profissionais experientes para transformar aquela primeira versão em uma solução mais robusta e segura.
As ferramentas reduziram barreiras para tirar uma ideia do papel, mas, na avaliação de Guanabara, desenvolver um software para uso real continua exigindo conhecimento, testes e atenção à segurança.
A participação de Guanabara fez parte da programação do GO!RN + DevFest Natal 2026. Nesta edição, o DevFest Natal foi integrado pela primeira vez ao GO!RN, ampliando os conteúdos voltados ao desenvolvimento, inteligência artificial, segurança e novas tecnologias.
Promovido pelo Sebrae-RN, em correalização com mais de 40 instituições parceiras, o GO!RN foi realizado nos dias 18 e 19 de setembro, no Centro de Convenções de Natal.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias







