A expressão da elite rastaquera no Brasil

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Por Carlos Manoel de Farias*

 

 

Segundo a etimologia, área do conhecimento linguístico que estuda a origem da palavra, o termo rastaquera encontra sua gênese na língua hispano-americana que deriva da expressão rastacuero e significa arrasta-couro. No final do século XIX o Francês adotou essa expressão conferindo-lhe outra semântica e, a partir daí, o rastaquóre se tornou uma expressão pejorativa para qualificar os novos-ricos, em sua maioria de origem latina, que visitavam Paris.

Um dado curioso é que ao acessarmos a Wikipédia francesa encontramos esse verbete associado à figura de um personagem, presente em uma ópera-bufa de Jacques Offenbach, conhecida como Le vie parisiense, de 1866. Esse personagem era conhecido como Le Brésilien (O Brasileiro), sujeito rico, mas desprovido de cultura e que gostava de ostentar os seus gastos estravagantes. Isso revela, em certa medida, a tonalidade racista a qual os franceses vestiram o vocábulo, mas foi exatamente esse mesmo significado que a nossa Língua conferiu à expressão. No Brasil, rastaquera é sinônimo de pessoa que ostenta riqueza por dispendiosas exibições (Michaellis) ou, segundo o Dicionário Aurélio, o termo rastaquera serve para qualificar a pessoa que expressa rudeza.

Encontrar a expressão de um rastaquera no Brasil não é tarefa das mais difíceis. Quem já teve oportunidade de assistir uma aula-espetáculo (disponível no YouTube) do saudoso escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, já deve ter percebido um curioso personagem, retratado em um dos muitos causos contados pelo autor. Trata-se de uma senhora que, durante um jantar de recepção, direciona o enredo da conversa com os convidados à uma dimensão tosca e frívola, deixando o escritor em apuros diante de tamanhos delírios.

Esse personagem deixa claro o seu desprezo pela cultura e eleva, em seu discurso, a importância do poder econômico como forma de referência para destacar a posição que o sujeito deve ocupar no meio social.

O personagem apresentado por Suassuna pode ser considerado como um retrato fiel de grande parte da elite nacional, a qual o professor e historiador Marco Antonio Villa costuma usar a expressão “elite rastaquera” para classificar esse grupo, que segundo ele, não são afeitas à cultura e só pensam em ostentar suas riquezas. Essas pessoas se comportam exatamente como “o brasileiro” de Jacques Offenbach, mas não só, desconhecem o país, fecham os olhos para as questões sociais mais prementes e acreditam que o Brasil é patrimônio seu, e por isso deve ser visto como objeto exclusivo de seus interesses.

A elite rastaquera ocupa boa parte do poder político e econômico no país, locupleta-se de suas riquezas e despreza sobretudo a diversidade e as características culturais do seu povo ao promover uma deturpação brutal da raiz cultural brasileira, valendo-se de caricatas adaptações construídas através de elementos culturais externos que nada tem a ver com a nossa identidade. Para isso, utilizam-se do mercado midiático, responsável por criar uma espécie de massificação cultural, mecanismo essencial no processo de alienação e dominação.

No momento em que atravessamos uma pandemia com consequências sociais ainda imprevisíveis, os rastaqueras tem mostrado sua face de modo explícito e peculiar, basta observar as carreatas convocadas em muitas cidades brasileiras, contrárias às recomendações de isolamento social. Em seus automóveis de luxo, aparecem sem o menor pudor, ávidas pelo funcionamento do comércio para que possam garantir seus hábitos de consumo. Para essa elite, não é possível imaginar lojas, shopping centers e aeroportos fechados, o que importa é manter seu incontrolável desejo de consumir.

Entretanto, imaginar que toda a elite nacional é rastaquera, pode nos levar a um equívoco, e isso já é algo a se comemorar. Nosso país também abriga figuras comprometidas com as questões nacionais. A título de exemplo, podemos apontar diversos nomes, mas basta apresentar apenas um, dada a tamanha contribuição ao país, que já poderemos nos dar por satisfeitos. Trata-se de Ricardo Brennan a quem perdemos na última semana, vítima da COVID-19. Brennand possui uma biografia irrepreensível e é considerado um dos maiores fomentadores da cultura no país.

Empresário de sucesso e profundo conhecedor do Brasil, Brennand nos deixou um patrimônio cultural incalculável e nos provou que nem só de rastaqueras é constituída a elite nacional. No auge de sua lucidez intelectual, certa vez disse Brennand: “Quando Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Imaginar que a elite rastaquera sonhe o que sonhou Brennand é quase uma utopia, então o que nos resta é torcer para que Deus nos mande outros Brennand.

Campo Grande-MS, abril de 2020.

O autor é Bacharel em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB-MS), Pós-Graduando em Direito Penal e Processo Penal pela Academia Brasileira de Direito Constitucional (ABDCOSNT-PR), Graduando em Letras pela Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS-MS) e possui o curso de Linguística aplicada ao ensino da fonética e fonologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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