A deusa arte na pandemia: 100FotosParaMS reúne artistas com objetivo de ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade

Imagem: Chinesa Muçulmana - Ariadne Marçal

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Em tempos de pandemia, a arte se mantém em isolamento, mas não isolada. 100 fotógrafos, 100 fotografias, cada uma vendida à R$100,00, tendo lucro voltado à CUFA (Central Única das Favelas) e ao Coletivo Terra Vermelha, assim surge a campanha 100FotosParaMS. O projeto tem intuito de minimizar os impactos causados pela pandemia da Covid-19 e conta com a participação de artistas para além da fotografia, de forma que, a música, poesia e teatro se fizeram presentes em Lives no Instagram.

A proposta de vender fotografias com o objetivo de juntar fundos para auxiliar no combate ao novo coronavírus surgiu na Itália, se expandiu por diversas regiões do Brasil até chegar ao Mato Grosso do Sul. A iniciativa partiu da fotógrafa de Nova Andradina (MS), Aline Teodoro, que se questionava sobre o que poderia ser feito nesse momento. “Eu estava me perguntando há algum tempo o que nós, que estamos em casa com segurança, conforto e tempo disponível, poderíamos fazer para ajudar quem não tem as mesmas condições que a gente, sabe? Quando eu vi no instagram as campanhas solidárias que os fotógrafos estavam fazendo nos outros estados, tive a ideia de fazer aqui também”, relata a artista. As vendas iniciaram em 1º de julho e vão até a última quinta-feira do mês (30/7).

Grupo de curiosos guiados pela intuição, entraram em contato com as iniciativas de outros estados, é o que conta Gustavo Maia (27), fotógrafo envolvido na organização do projeto. Ele compartilha, também, com o Manchete Popular, que não foi estabelecido um tema específico que as imagens deveriam abordar, tendo como critério apenas a não violação do estatuto da criança e do adolescente, não podia ser uma pessoa em situação de vulnerabilidade e nem fazer apologia à violência. “A gente precisava de uma fotografia em alta resolução, temática livre, as pessoas podiam mandar as fotos que elas quisessem”, explica o fotógrafo.

Eu, passarinho – Gustavo Maia

Maia aproveita para fazer uma crítica às gráficas do estado, devido à ausência da impressão necessária, o projeto encontrou uma gráfica parceira em Campinas (SP). “A fotografia evoluiu tanto em Mato Grosso do Sul nos últimos anos, a gente tem artistas e profissionais com trabalhos incríveis, gente que vive da fotografia, mas as gráficas não acompanharam ou não deram tanta atenção para esse público e a gente não encontrou em Mato Grosso do Sul uma gráfica que fizesse impressão fine art [técnica de impressão de fotografia em alta qualidade]”, ressalta ele.

As entidades apoiadas em Mato Grosso do Sul são a CUFA e o Coletivo Terra Vermelha . A CUFA é um coletivo que desenvolve ações assistenciais em comunidades periféricas na capital e tem expandido sua atuação para cidades do interior. O Coletivo Terra Vermelha, formado por voluntários, atua em comunidades indígenas do estado oferecendo assistência jurídica e social, se fazendo presente onde o Estado se mantém de olhos fechados.

Os fotógrafos

Através de convites e indicações, o grupo foi crescendo até chegar a 100 fotógrafos participantes. Com preocupação em não envolver apenas fotógrafos da capital, mas também do interior do estado, como de Dourados, Corumbá, Coxim, etc, as imagens foram enviadas através de um formulário online.

Para o fotógrafo Higor Bandeira (25) a fotografia atua como uma válvula de escape e como ferramenta de estudos sociais, pela qual ele registra realidades e problemas que podem passar despercebidos, provocando as pessoas a terem um novo olhar para a cidade em que habitam. Ele entende o projeto como “uma oportunidade de mostrar meu trabalho para mais pessoas, com isso ajudando numa causa que sozinho e com intenção não conseguiria, e ter participado fez-me sentir bem em saber que estou ajudando pessoas que não conheço e que passam por situações precárias a terem uma oportunidade de serem ajudadas por um projeto que visa uma melhora de vida nos tempos atuais que estamos vivenciando em 2020”.

Ariadne Marçal (27), fotógrafa há sete anos, possui a fotografia como forma de expressão e relata que ficou emocionada quando foi convidada. “E são pessoas espetaculares de muita paciência e carisma que tomaram a frente e organizaram esse projeto belíssimo. Eu me sinto muito honrada de poder contribuir”.

Para o fotógrafo e professor do curso de jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Silvio Costa Pereira (54) visualiza a proposta como uma vitrine para esse trabalhos, sendo ela “localizada dentro de uma cultura visual que a gente tem hoje, para ver como as imagens tem relevância na nossa sociedade, a ponto das pessoas se juntarem por meio de imagens, para vendê-las, para tentar ajudar numa questão social”, conta o professor. Além disso, na visão de Silvio, Campo Grande é uma cidade que não dá visibilidade para a fotografia e essa iniciativa pode estimular fotógrafos e pessoas interessadas a produzir mais fotografias e terem trocas sobre o assunto.

Salto para a vida – Higor Bandeira. Um macaco prego saltando de galhos secos para galhos vivos.
Caminho – Silvio da Costa Pereira

 

 

 

 

 

 

As Lives

Integrando ainda mais a comunidade artística local, as LivesParaMS contam com amplo repertório cultural. Do folk, funk, rap, polca rock à poesia e dramaturgia, todos os sábados e domingos de julho tornaram-se encontros para a apreciação do trabalho de artistas sul-mato-grossenses. Participaram Bibiana Vargas, Jerry Espíndola, Begèt de Lucena, Febraro, SoulRa e Espedito Di MonteBranco.

Hoje (25) às 20h, é a vez do músico Dovalle compartilhar seu trabalho, seguido por Maringá Borgert amanhã (26/7) no mesmo horário.

Calendário de Lives

Raissa Sousa Carvalho (25), mais conhecida como SoulRa, se entende enquanto artista desde sempre, tendo a arte como um dos pilares de sua formação, “é uma deusa a qual eu sirvo”. Ela acredita na importância da união entre os formatos artísticos, não apenas pelo contato com um público novo, mas primordialmente por integrar a arte em si. “Para a campanha, também é muito legal chamar artistas, que tem um público, pessoas que acompanham e fazer isso de forma integrada em uma campanha, gera uma rede de fortalecimento”, acrescenta ela.

Essa deusa arte, com seus braços compridos, engloba em si as manifestações do ser, os amores, as críticas, as denúncias e, acima de tudo, a vontade intrínseca pela mudança social. Respeitando o isolamento, o 100FotosParaMS abraça a arte e a vida, fazendo jus ao seu slogan “não podemos estar perto mas podemos estar juntes”.

A visitação à galeria de fotos é feita através do link www.100FotosParaMS.com.br, pelo qual pode ser realizada a compra de fotografias. As imagens também estão disponíveis no Instagram https://www.instagram.com/100fotosparams/.

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