A eleição com Lula e sem Lula – Cláudio Guimarães

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Ponto de vista

* Cláudio Guimarães, advogado e professor universitário.

 

Condenado por Sérgio Moro a uma pena estipulada inicialmente em nove anos, Lula amargou um julgamento fatal pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região), que além de manter sua condenação, ampliou a sua pena.

 

O cenário para o ex-presidente tornou-se mais estreito, passando a ser um desafio a possibilidade de sua candidatura e muito mais do que isto: a viabilidade da mesma.

 

Para muitos, o julgamento proferido pelo TRF 4ª deixou um recado claro: Lula não pode ser candidato e para seus adversários, deve ser preso como um exemplo.

 

De todo modo, a partir de agora Lula deve pensar quais são as suas opções. E digo Lula e não o PT, porque pelo menos ao que tudo indica, Lula sobrevive enquanto mito, não necessariamente dependendo do PT; já este vive um calvário ao ver seu maior líder agonizar. Já se falou em bastidores, que alguns do partido teriam cogitado dar um basta na situação, assumir os erros de seu maior líder e tentar passar a mensagem de que o PT é maior que o mesmo e não pode ser penalizado.

 

Pouco provável e se provável, um suicídio. Não duvido que um ou outro membro tenha tido a ideia vendo o partido desmoronar. Goste ou não, o PT tem um papel importante na construção da democracia brasileira. Mas a questão é que o formato do partido há algum tempo inclina-se para um formato de seita, em que há um líder a ser venerado, que precisa ser defendido contra todos seus inimigos e que é ilibado em sua conduta moral: Lula. Por isto seria no atual contexto, muito difícil um PT sem Lula; pior, um PT que renegasse Lula.

 

À Lula restariam três opções: manter-se como nome do PT ao Planalto, sendo candidato à presidência; apoiar um nome do partido como uma espécie de sucessor de seu capital político, como candidato à presidência; apoiar outra candidatura de esquerda.

 

A primeira opção, que talvez seja a mais arriscada, é a que mais se evidencia. O PT já deixou claro que vai para briga, que vai investir na batalha jurídica e na mensagem de que o Lula é o candidato. Dependendo do que acontecer no processo poderá até indicar outro nome dentro da sigla, como o de Jaques Wagner, Haddad, Gleisi Hoffmann ou outro nome que Lula pode surpreender, como por exemplo, Fernando Pimentel, governador de Minas Gerais. A situação poderia ser bem interessante, pois se de um lado houvesse um desgaste político com a frustração da candidatura de Lula; de outro poderia haver um sentimento de revolta por parte de seus simpatizantes, que entregariam seus votos em massa para quem o “líder” indicasse. Tudo passaria pelo teste em se saber se Lula possui ou não possui condições de transferir seu capital político para alguém.

A segunda opção parece não ser cogitada pelo partido, até o momento. Como já dito, existem nomes que poderiam ser avalizados por Lula na sucessão presidencial. Para muitos, esta opção até seria bem sensata, pois o ex-presidente respondendo perante a Justiça abriria mão de uma candidatura pouco provável e problemática, deixando de adotar uma postura de afronta. Mas aqui novamente teríamos o teste em se saber se Lula é um potencial transferidor de votos para outro nome por ele indicado.

 

A indicação também seria complicada, pois haveria de ser um nome absolutamente distante de qualquer investigação na operação “lava-jato” e segundo alguns, não poderia ser uma mulher, pois a associação com a indicação de Dilma seria quase que automática e para muitos, Dilma foi o grande erro de Lula.

 

A terceira opção se mostra muito distante. Primeiro diante do orgulho do PT em ainda manter-se de pé mesmo alvejado por todos os lados; segundo, qual seria um nome da esquerda que Lula pudesse apoiar? Marina seria quase impossível. Existe muita mágoa dentro do partido com o episódio de sua saída e tudo o que se falou depois. Ciro Gomes cada vez mais se distancia de Lula com suas declarações e mostrou hesitação em apoiá-lo diante do julgamento. Aliás, o enfraquecimento do PT na disputa parece ser bom negócio para Ciro, que passa a ser uma opção da esquerda.

 

De todo modo, é importante anotar algo interessante: por incrível que pareça, a inviabilização de Lula parece fazer mais mal para a direita do que para a esquerda. É que sem Lula, vão-se embora os votos de protesto, daqueles que votariam em outros candidatos, para que Lula não fosse eleito. Bolsonaro, o mais incisivo de todos, parece perder com isto. Já Ciro Gomes, como dito, ficaria no vácuo criado, como opção válida da esquerda. Resta-nos saber se de fato, as coisas evoluirão nesse sentido.

 

A verdade é que sem Lula e dependendo do número de candidatos, haverá pulverização de votos e a eleição se tornará uma caixa de surpresas. Aguardemos os próximos capítulos.

 

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