Queda na abstenção, mais votos válidos no segundo turno e avanço em todos os estados ajudam a explicar a vitória de Lula nas eleições de 2026.
O presidente Lula conquistou 10,3 milhões de votos a mais, saltando de 53 milhões de votos no primeiro turno para mais de 64 milhões na segunda rodada de votações. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro teve acréscimo de 3,7 milhões, saindo de 56 milhões para 59 milhões de votos.
Não dá para saber exatamente qual voto foi para onde, mas é possível fazer algumas observações.
Apesar de não ter vencido em todos os estados, Lula conquistou mais eleitores que o adversário em todos os estados na passagem para o segundo turno. Flávio, inclusive, viu a votação diminuir em seis: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Roraima e Tocantins.
Um destaque importante para a Região Sudeste. Em Minas Gerais, Lula conseguiu a virada ao conquistar o voto de mais de 1,1 milhão de mineiros. Flávio Bolsonaro conseguiu mais 400 mil no estado. Em São Paulo, Lula teve 2,6 milhões de votos a mais no segundo turno. Isso é mais que o dobro do que o candidato do Partido Liberal (PL) conseguiu.
Para o professor de ciência política da Universidade de Brasília, Luiz Felipe Miguel, o indutor desse avanço foi a mudança do discurso de Lula, para ficar mais próximo de problemas reais, como a segurança.
“Valores como democracia ou soberania nacional, que sem dúvida nenhuma são importantíssimos, e que foram o centro de boa parte da campanha do primeiro turno, eles às vezes parecem abstratos demais para as pessoas. E quando o Lula focou nos programas sociais, na segurança, nos direitos dos trabalhadores, ele fala mais diretamente dessas preocupações, e essas preocupações estão presentes na vida do cidadão comum do Nordeste, mas do Sudeste, do Sul de todas as regiões do país.”
O fortalecimento da campanha nas plataformas digitais, como o canal Exército do Lula, com mais de 10 milhões de pessoas no WhatsApp, foi outro ponto fundamental, com a esquerda superando a militância bolsonarista que antes dominava as ruas e as redes, avalia a cientista política e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Camila Rocha.
“Não foi um movimento que veio do PT, foi um movimento que veio das pessoas. Quer dizer, o Janones não é do PT. Outros deputados também que não são do PT se somaram, outras lideranças. Então, realmente foi isso. Foi uma coisa que contornou o PT, a burocracia partidária, senão isso não teria dado certo.”
Para o professor Luiz Miguel, Flávio Bolsonaro sofreu com a necessidade de se equilibrar entre a base mais moderada e a mais extremista.
“E ele sofreu o problema que os candidatos da extrema-direita sofrem no Brasil e no mundo, que é essa ambiguidade entre ter que acenar para os moderados e, ao mesmo tempo, ter que dar sinalizações para a sua base original da extrema-direita que ele continua fiel ao extremismo. Então ele cometeu erros, poeris, como aquilo de ter chamado Lula de nove dedos no debate da Globo.”
A pesquisadora Camila Rocha conta que fez entrevistas e que a menção de Flávio ao fato de Lula ter perdido um dedo teve impacto sobre o eleitorado.
“Logo depois eu estava fazendo grupos focais com eleitores e uma eleitora chorou, falou que minha mãe também perdeu dedos dos pés, estava trabalhando. Então é isso, acho que ativou nessas pessoas, independente delas aprovarem o governo do Lula ou não, independente de gostarem do Lula ou não, independente de gostarem da atuação do PT ou não, mas realmente foi um movimento do povo de se defender.”
Também vale entrar nesses cálculos a abstenção geral, que caiu de 21% para 19%. Além disso, as quantidades de votos brancos e nulos diminuíram. Então, no total, foram quase 4,8 milhões de votos a mais de um turno para o outro.
Fonte: Radioagência Nacional – EBC








