“Cocaína – A rota caipira”

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Sabe quando um livro conta histórias tão absurdas que pensamos que seu autor exagerou na imaginação? “Cocaína – A rota caipira”, do jornalista Allan de Abreu, poderia estar nessa categoria se não fosse um “detalhe”: tudo o que encontramos em suas 800 páginas é verdade pura. Nada é ficção. Para nosso espanto permanente, Allan nos apresenta, com riqueza de detalhes, os meandros do narcotráfico na rota caipira, do interior de São Paulo ao triângulo mineiro. A região é um ponto estratégico, caminho entre os países produtores da droga – Colômbia, Bolívia, Peru – de um lado, e os grandes centros de consumo, São Paulo e Rio de Janeiro, de outro. É pela rota caipira, como foi batizada, que se mede a pulsação da compra e venda de cocaína no Brasil.

No livro, há sempre uma surpresa à espreita, mostrando que a indústria da droga é muito mais dinâmica do que pensamos, cooptando brasileiros de absolutamente todos os níveis sociais e econômicos – incluindo políticos e autoridades. Durante quatro anos, o autor entrevistou policiais, juízes, promotores, traficantes e cocaleiros no Brasil, Paraguai e Bolívia. Reuniu milhares de documentos, a maior parte inéditos. O resultado é uma obra-prima da reportagem, radiografia corajosa do mercado das drogas no país.

Com uma narrativa saborosa e cativante, Abreu devassa a ascensão e a queda dos grandes barões do pó; a criatividade na arte de despistar a polícia – cocaína vira tecido e até plástico –; o drama dos “mulas” a serviço do narcotráfico; a organização empresarial de grandes grupos criminosos como o PCC; os mecanismos de lavagem dos milhões de dólares impregnados pelo branco da cocaína e a corrupção do aparelho repressivo, da polícia ao Judiciário.

Em entrevista ao blog da editora, ele critica a falta de vigilâncias nas fronteiras brasileiras e a falta de cooperação policial do Brasil com os países vizinhos, lembrando que há muitos grupos criminosos operando o narcotráfico no país. “Tem tanto brasileiros quanto cartéis bolivianos e colombianos, sem contar europeus, sobretudo quadrilhas sérvias,

portuguesas e espanholas, além de grandes grupos mafiosos italianos, com destaque para a ‘Ndranguetta. Mas hoje o grande “broker” do narcotráfico no Brasil atende pelo nome de PCC”, afirma o autor.

Allan de Abreu é jornalista e tem mestrado em literatura. Sabe escrever – e isso, acredite, é menos comum do que deveria. É esse talento que nos leva a terminar o livrão em dois tempos, surfando na prosa ágil e na mistura equilibrada de informação, curiosidade, entrevistas, diálogos… “Cocaína – A rota caipira” não deixa nada a dever aos bons thrillers. As descrições das operações da polícia e da vida dos traficantes parecem pequenos roteiros – prontos para serem filmados. É ler para crer.

A obra já chegou às livrarias, pela Record.

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